Antes de qualquer ligação nova de energia, a distribuidora precisa saber quanta potência aquela edificação vai solicitar da rede. Esse número não é a soma de tudo que existe no imóvel: é uma estimativa de quanto será consumido simultaneamente, em condição de uso normal. É o estudo de carga e demanda, e ele determina decisões que são caras de reverter.
Carga instalada não é demanda
A carga instalada é a soma das potências de todos os equipamentos previstos. A demanda é quanto disso opera ao mesmo tempo. A diferença entre as duas é grande e não é arbitrária: ninguém liga o chuveiro, o forno, a máquina de lavar, o ar-condicionado de todos os quartos e a secadora no mesmo instante.
Para traduzir carga em demanda, aplicam-se fatores que consideram o tipo de uso e a probabilidade de simultaneidade. Esses fatores não são universais — cada distribuidora publica suas próprias normas técnicas de fornecimento, com critérios e tabelas próprias. Um cálculo feito com os fatores de uma concessionária e submetido a outra pode simplesmente não ser aceito.
O que o número decide
A demanda calculada define, em cadeia, uma série de escolhas.
Define o padrão de entrada: o conjunto de poste, caixa, disjuntor geral e medidor que a concessionária exige. Define a bitola do ramal de ligação. Define se o fornecimento será monofásico, bifásico ou trifásico. E define, acima de determinado patamar, se a ligação deixa de ser em baixa tensão e passa a exigir entrada em média tensão, normalmente com subestação transformadora.
Essa última decisão é a de maior impacto. Subestação exige área física reservada, tem custo de implantação relevante, envolve projeto específico e altera a implantação do empreendimento. Descobrir a necessidade dela depois que a arquitetura está fechada significa refazer a implantação — ou encaixar a subestação em um lugar ruim.
Por que reprovar na concessionária é tão caro
A análise da distribuidora não acontece em paralelo com a obra: ela é pré-requisito. Sem aprovação, não há ligação definitiva. Uma obra que chega ao fim com o padrão de entrada reprovado fica em uma situação particularmente incômoda — pronta, mas sem energia, com o cronograma de entrega comprometido e sem alternativa a não ser corrigir e reapresentar.
Os motivos de reprovação mais frequentes são pouco dramáticos: demanda calculada com critério diferente do exigido pela distribuidora, padrão de entrada especificado fora da norma local, documentação incompleta, ausência de responsável técnico. Nenhum deles é difícil de evitar quando o projeto é feito consultando a norma da distribuidora que efetivamente vai atender a obra.
O efeito da localização
Este é um ponto que costuma surpreender quem contrata projeto à distância: as regras mudam de concessionária para concessionária. Uma obra em Cascavel é atendida pela distribuidora do Paraná; a mesma obra replicada em outro estado responde a outra empresa, com outra norma de fornecimento, outros formulários e outro fluxo de análise.
Projeto elétrico não é um documento genérico que serve em qualquer lugar. Informar a cidade da obra logo no início não é formalidade: é o que permite dimensionar segundo o critério que será efetivamente aplicado na análise.
Quando revisar o estudo
A demanda deve ser revista sempre que o uso previsto mudar de forma relevante: mudança de finalidade do imóvel, inclusão de climatização que não estava prevista, entrada de equipamentos industriais, adição de pavimentos, previsão de carregadores de veículo elétrico. Este último item tem aparecido com frequência crescente e costuma passar despercebido no dimensionamento inicial — um carregador de uso residencial já representa uma parcela significativa da demanda de uma casa.
O estudo de demanda é, em resumo, a peça do projeto elétrico com maior consequência sobre custo e cronograma, e a que menos se percebe quando está bem-feita.