Instalações hidrossanitárias parecem um assunto só, e são dois. Água chega sob pressão, em tubulação fechada, e o projeto precisa garantir que ela alcance cada ponto com vazão e pressão adequadas. Esgoto sai por gravidade, em tubulação parcialmente cheia, e o projeto precisa garantir que ele escoe sem entupir e que os gases não retornem para dentro dos ambientes. As duas coisas obedecem a físicas diferentes e a normas diferentes.
Água: pressão é o problema central
A NBR 5626 trata dos sistemas prediais de água potável. O dimensionamento parte da vazão que cada aparelho exige e da simultaneidade provável de uso — um prédio com quarenta apartamentos não tem quarenta chuveiros ligados ao mesmo tempo, e dimensionar como se tivesse produziria tubulação superdimensionada.
O que costuma dar errado é a pressão nos extremos. Pontos muito próximos do reservatório superior recebem pressão insuficiente: é o clássico chuveiro fraco no último andar, onde a coluna de água disponível é pequena. Pontos muito abaixo recebem pressão excessiva, o que provoca ruído, desgaste acelerado de vedações e risco de golpe de aríete quando um registro fecha rápido.
A norma também trata de proteção contra contaminação da água potável — evitar situações em que água já utilizada possa retornar para a rede de abastecimento por sifonagem. É um requisito de saúde pública que passa despercebido em instalação improvisada.
Esgoto: escoamento e vedação de gás
A NBR 8160 trata dos sistemas prediais de esgoto sanitário. Aqui o inimigo é outro. Tubulação de esgoto trabalha por gravidade e nunca deve escoar completamente cheia — precisa haver ar acima do líquido.
Daí decorre o critério de declividade. Declividade insuficiente faz o efluente escoar devagar, depositar sólidos e entupir. Declividade excessiva também causa problema, e este é menos intuitivo: a parte líquida corre à frente e deixa os sólidos para trás, com o mesmo resultado.
O segundo tema central é a ventilação do sistema. Cada aparelho tem um sifão, e dentro dele fica retida uma pequena coluna de água — o fecho hídrico — que impede que os gases da rede subam para o ambiente. Quando uma descarga cria variação de pressão dentro da tubulação, essa coluna pode ser sugada ou empurrada, e o fecho se perde. O resultado é cheiro de esgoto em um banheiro aparentemente normal.
A rede de ventilação existe para equalizar essa pressão. Ela não conduz efluente e por isso é frequentemente vista como supérflua por quem executa sem projeto — é uma das primeiras coisas a serem suprimidas em obra improvisada, e uma das causas mais frequentes de reclamação depois.
Águas pluviais: a terceira frente
Drenagem de águas pluviais tem norma própria, a NBR 10844, e critério próprio: o dimensionamento parte da intensidade de chuva adotada para a região e da área de contribuição que cada calha e cada condutor precisa dar conta.
É um sistema que passa a maior parte do tempo sem ser exigido, o que gera falsa segurança. O dimensionamento não é feito para a chuva comum, e sim para o evento intenso — que é justamente quando o subdimensionamento se manifesta, na forma de transbordamento de calha e infiltração.
Outro erro relevante é a interligação indevida entre pluvial e esgoto sanitário. Além de ser vedada, ela sobrecarrega a rede de esgoto em dias de chuva e pode provocar refluxo.
Onde as três se encontram com as outras disciplinas
Tubulação hidrossanitária ocupa espaço vertical e horizontal em quantidade relevante: shafts, forros, furos em vigas. É por isso que essa disciplina aparece com destaque em qualquer relatório de interferências. Prumadas que não têm shaft previsto, esgoto que precisa de declividade em um forro cuja altura livre já está comprometida, furo em viga em posição não autorizada pelo cálculo estrutural.
Nenhum desses conflitos é difícil de resolver no projeto. Todos são caros de resolver depois que a estrutura está pronta.