Uma confusão comum atrapalha boa parte das conversas sobre BIM: tratar nível de desenvolvimento como sinônimo de nível de detalhe gráfico. São coisas diferentes. Um elemento pode estar graficamente riquíssimo e ainda assim não ser confiável para extrair quantitativo. E um elemento visualmente simples pode carregar exatamente a informação de que a obra precisa.
LOD, do inglês Level of Development, descreve o quanto se pode confiar na informação associada a um elemento do modelo em determinado momento do projeto. A pergunta que ele responde não é "quão detalhado está?", e sim "posso tomar qual decisão com base nisso?".
O que caracteriza cada faixa
Nos níveis iniciais, o elemento existe como representação genérica: um volume que ocupa lugar, com posição aproximada. Serve para estudo de massa, verificação de partido e checagem de viabilidade. Não serve para comprar material nem para definir traçado definitivo.
Na faixa intermediária — o território do LOD 300 —, o elemento tem geometria específica, posição, dimensão e orientação confiáveis. É o nível em que a compatibilização entre disciplinas passa a ter sentido real, porque o que está no modelo corresponde ao que será construído, em termos de ocupação de espaço. Também é o nível em que os quantitativos começam a ser utilizáveis para orçamento.
O LOD 400 acrescenta a camada de fabricação e montagem. O elemento deixa de ser "uma viga de concreto com estas dimensões nesta posição" e passa a carregar o detalhamento necessário para produzir e instalar: armaduras, conexões, fixações, sequência de montagem, folgas de instalação. É o nível que interessa a quem vai pré-fabricar fora do canteiro.
Por que a escolha do nível é uma decisão de projeto
Modelar tudo no nível máximo parece a escolha segura. Não é. Cada incremento de nível custa horas de modelagem, e essas horas entram no preço e no prazo. Um modelo em LOD 400 de uma edificação inteira, quando o uso pretendido era apenas compatibilizar e orçar, é dinheiro convertido em informação que ninguém vai usar.
O erro oposto é mais perigoso. Um modelo em nível insuficiente dá a sensação de coordenação sem entregá-la. Se as tubulações estão representadas como linhas genéricas, sem as conexões e curvas reais, a verificação automática não vai acusar o conflito que existe na prática — porque a peça que causa o conflito não está no modelo. Pior: o relatório vem limpo, e o time conclui que está tudo resolvido.
O nível pode variar dentro do mesmo modelo
Essa é a parte que costuma destravar o assunto na prática. Não existe obrigação de que todos os elementos estejam no mesmo nível. É perfeitamente razoável — e normalmente é o mais econômico — que a estrutura esteja em um nível mais alto, porque dela dependem decisões caras e irreversíveis, enquanto elementos de acabamento permanecem em nível mais baixo.
O critério para decidir é o uso pretendido. Para cada elemento, a pergunta é: que decisão será tomada com base nele, e que informação essa decisão exige? Um shaft que vai concentrar seis prumadas precisa de um nível de confiança maior do que uma bancada.
O que combinar antes de contratar
Três pontos evitam a maior parte dos desentendimentos. O primeiro é o uso pretendido do modelo: compatibilização, quantitativo, planejamento, gestão do edifício pronto — cada um exige informação diferente. O segundo é o nível por disciplina e por fase, registrado por escrito. O terceiro é o formato de entrega: pranchas, modelo em formato aberto de intercâmbio, arquivos nativos.
Quando esses três pontos ficam definidos no início, a discussão sobre "o modelo deveria ter isso" deixa de ser uma disputa de expectativa e vira uma consulta ao que foi combinado. Quando não ficam, o cliente costuma esperar LOD 400 pelo preço de LOD 200 — e o projetista costuma entregar o que julgou razoável, que raramente coincide com o que o cliente imaginou.